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A estadia do violetista improvisador João Camões em Paris resultou na formação deste trio com os franceses Jean-Marc Foussat e Claude Parle. Se a ausência, por cá, do músico português membro do Open Field String Trio e dos Earnear se fez notar, a sua actividade continuou em França. Agora que está de regresso, este é o grande documento desse período. Companheiro em múltiplas aventuras de figuras da primeira linha como Jac Berrocal, Daunik Lazro, Raymond Boni, Sophie Agnel, Jerôme Bourdellon, Ramón López, Makoto Sato e Carlos “Zíngaro”, entre muitos outros, Foussat surge em “Bien Mental” com um não especificado “dispositivo electroacústico” – maneira equívoca de referir um "setup" constituído por um computador, para trabalho de “sampling” em tempo real do trabalho desenvolvido pelos outros membros do grupo, e por um sintetizador analógico. Parle é, pelo seu lado, um dos mais importantes acordeonistas da actual improvisação, participando ainda em criações “intermedia” e em espectáculos de butô com os japoneses Masaki Iwana, Moeno Wakamatsu e Toru Iwashita.
Mais próximas dos universos da música experimental e da música contemporânea do que do jazz, as improvisações aqui reunidas optam pela saturação sonora. São poucos os espaços e os silêncios, tudo se fixando na adição e subtracção de camadas de eventos, o que pode tornar-se cansativo para quem não tenha hábitos de “escuta profunda”. A compensação surge com os sempre permutáveis jogos de timbres e com o amplo quadro de dinâmicas, assim mantendo a atenção desperta. A música é intensa, fluida e fortemente gestual, sempre com coisas a acontecerem, à vez ou ao mesmo tempo. Mas não, não se trata de algo de “mental” – o tipo de energia ministrado, a quase visceralidade das situações, o modo de entrega ao som e às tramas e, sobretudo, a interacção entre os três elementos demonstram que esta é uma música para os ouvidos, não para o intelecto.
Rui Eduardo Paes
Les notes de pochette contiennent un magnifique poème de Claude Parle qui nous livre ici une superbe partie d’accordéon entre le violon alto de João Camões et l’installation électrocutée de Jean-Marc Foussat. Enregistré à la maison, ce remarquable trio développe une symbiose étonnante entre les glissements microtonaux de l’alto, le chuintement des anches libres de l’accordéon qui font des anicroches aux gammes tempérées et les vibrations quasi motorisées du dispositif électro acoustique. Il y a dans cet univers un souffle et une matérialité qui évoque les affects de la voix humaine, une poésie des sons organiques. Une dérive initiée par le sciage des harmoniques à l’archet en ostinato mouvant jusqu’à un demi silence d’où vient sourdre le délire des touches de l’accordéon. L’Autre bout s’achève. A vingt ans : une pédale d’orgue imaginaire en unisson contrarié, des échanges subtils, des démarrages amorcés, une conception intéressante de l’occupation de l’espace sonore, des drones sensuelles alternent avec le charivari, du silence affleurent des murmures. Le trio attire l’écoute et l’attention par le renouvellement des propositions et une écoute minutieuse. La magie du glissando opère dans le languissement de longues notes tenues dont les couleurs pâlissent et les fréquences descendent de quelques commas. Les passages enlevés tels des guigues célestes, menées tour à tour par le violon ou l’accordéon, sont enchaînés par les grondements sous-marins de l’installation de J-MF ou des barbotements improbables. Il y a une véritable osmose entre les sons acoustiques et les bruissements électroniques. L’évocation d’une guimbarde de la Déchirure sonne le rappel de l’ostinato du morceau précédent version tzigane cosmique. Camões trouve le ton juste pour se joindre aux contrepoints affolés de Parle, lequel musicien n’a jamais mieux porté son patronyme : il parle aussi excellement musique qu’il n’écrit musique. Quand trois musiciens dissemblables mais animés par une sincère volonté de dialogue et de complémentarité échappent aux lieux communs : le Bien (commun) Mental. J’applaudis !!
J-M Van Schouwburg